Pai, filho e espírito
Um pequeno conto
Hoje, as coisas serão diferentes. Esse primeiro conto será divido em duas partes. Espero que gostem. E, por favor, caso tenham alguma crítica, estou aberto á melhorar :)
Capítulo I
Era final de uma tarde de inverno. O vento batia nas janelas, trazendo um ar frio para o velho sótão daquela casa. Ali, encarando a bela mulher desenhada no quadro que cheirava a mofo, Orfeu ficava de pé com dificuldades. Talvez, num dia comum, seria a coisa mais lógica a se fazer. Beleza se contempla. Entretanto, fazê-lo naquela casa sozinho, transformaram o senhor, já encurvado pelo tempo, numa figura, no mínimo, curiosa. Lentamente, o homem levanta sua mão com a esperança de, talvez, poder tocar na mulher emoldurada. Quando de repente, ouviu passos e a porta se abrindo.
— Saia daqui. — disse uma voz vinda de trás. — Vai acabar adoecendo se ficar saindo no meio da noite, mais do que já está. Quantas vezes vou ter que te dizer para parar com isso. Por que não consegue superar?
— Eu já te disse! — vociferou Orfeu com as mãos trêmulas. — Não preciso da autorização de uma criança para sair de casa! — exclamou, virando-se rapidamente e batendo com sua bengala no chão de madeira.
— Eu já tenho 30 anos, pai. De qualquer forma, todos estavam te procurando. Estávamos preocupados, você sempre foge. E quero que saiba de uma coisa: eu tive que sair do meu trabalho por sua causa. Seja grato, entendeu? Particularmente, pensava que já tinha parado com isso. Pelo visto, ainda não entendeu que o mundo não gira ao seu redor. — afirmou o jovem enquanto se aproximava. Estava bem trajado: terno completo e uma maleta preta. Diferente de seu pai, que vestia alguns trapos remendados. O jovem então toca o ombro de Orfeu que rapidamente se move.
— Tem razão, Teseu. — respondeu indo novamente à tela. — O mundo não gira ao meu redor, eu que te ensinei isso. Quando menos se espera, o tempo passa, a madeira apodrece… os músculos murcham, as janelas se quebram, a casa fica retrógada e a vida… a vida vira memória. — murmurou olhando para a mulher. — Me perdoe por preocupá-lo novamente. Sabe, meu filho, sempre tentei fazer meu melhor por todos vocês, ainda que tenha falhado diversas vezes. Não se preocupe. Vá viver sua vida. Deixe-me aqui, sozinho. — balbuciou, com olhos marejados.
— Não sairei daqui sem te trazer de volta, Orfeu. Por favor… não complique as coisas! Acha que é fácil voltar para cá? Para essa casa? Pensei que já tinha vendido. Está na hora de seguir em frente. Olha só seu estado! — exclamou o jovem que tentava recuperar a atenção do pai.
— Jamais venderei a última memória que tenho dela. Jamais! — disse Orfeu, tremendo, mas agora não de raiva. — Se quiser, pode ir, mas não sairei daqui. Se tem medo de encarar o passado, que fuja. Eu não tenho! — Finalizou com a testa franzida.
— Pai, não é sobre ter medo do passado… ninguém quer entrar na casa onde uma mulher morr–
— Cale a boca! — Gritou Orfeu enquanto dava um tapa em Teseu. — Essa mulher tem nome, é a sua mãe…! Tenha o mínimo de respeito, ao menos uma vez na vida! Você sabe o quanto ela fez por você… — Quando citou sua amada, olhou para a pintura. Entendeu o que fizera. Então, como num rasgar de vestes, calou-se.
Alguns minutos se passaram, e o silêncio continuava absoluto. O jovem estava pasmo, boquiaberto. Olhava fixo para o chão, sem entender o que tinha acabado de acontecer. Não esperava muito do pai, mas estava surpreso. O velho também. Não tinha tido a intenção de machucá-lo, e agora, sentia um medo crescente: seu filho tinha o motivo perfeito para nunca mais olhar na sua cara.
— Ah… meu filho, me perdoe! M-me perdoe.. Você sabe como sou, s-sempre faço as coisas no impulso e me arrepen— ele falava apressado, entretanto, no momento em que tentava se redimir, tropeçou na própria bengala e quase caiu. Seu filho havia o segurado.
— Não tem problema, meu pai. Sei que deve ter sido difícil para o senhor também… — Teseu tremia, mas estava confiante de que era hora de reconciliar-se. Calmamente, levantou seu pai, pegou duas cadeiras e as colocou na frente do quadro. — Acho que nunca perguntei sobre ele, o quadro, nem sobre ela. Você se importa tanto com ele… por quê?— perguntou, enquanto se sentava.
— Ah, ela era bela, Teseu. A mais bela. E Esse quadro…— disse passando os dedos lentamente no nome embaixo da pintura. — Foi no dia em que pedi ela em casamento.


Ansioso pela segunda parte!!!
ameeeeii!! Cadê a segunda parteeee??